Nos últimos dias tive finalmente a oportunidade de viver uma das
minhas experiências eternamente adiadas: comer lampreia. E tinha sido
adiada por puro preconceito, como já tinha adiado os caracóis, as
enguias ou as experiência homossexuais (que vou continuar a adiar por
mais algum tempo).
Não há nada mais feio do que discriminar pela beleza física. Se nos
deixassemos guiar apenas pela beleza, só comíamos cavalos, golfinhos ou
aqueles lindos peixinhos de aquário. A gastronomia ensina-nos a não
julgarmos os seres vivos pelo seu aspecto, devemos dar-lhes sempre uma
oportunidade com os mais diversos temperos.

Atraído pela necessidade de dar sentido a três dias sem trabalho, o meu mercedes 190 deu entrada por volta das 12h30 em
Vila Nova de Cerveira,
onde decorre até ao final do mês o Festival da Lampreia. Uma passagem
pelo Posto de Turismo chegou para tomar a decisão: vamos à
Casa do Lau.
Lau não é apelido que se dê a ninguém. Lau, reduz um homem de barba
rija, um ranger, a um professor de aeróbica, o que não é a imagem ideal
para um restaurante português. Mas paciência.
A casa do Lau é um restaurante bem agradável, com uma decoração a atiçar
o homem ou a mulher requintado que há em nós, mas num ambiente bem
prazenteiro. Possui ainda um interessante pátio com vistas sobre o rio
Minho.
Vamos ao essencial. O atendimento é extraordinário. Diz-se que a
simpatia dos funcionários faz ou não o sucesso do restaurante. Na Casa
do Lau há simpatia, não a excessiva, a importunadora, não a simpatia
ensaiada, mas natural e espontânea. No final, olhei para os trocos na
minha bolsa e pareciam-me poucos para gorjeta. Estive quase a pedir-lhe o
NIB para fazer uma transferência condigna.

A mesa. A abrir: orelhinha de porco em molho de cebola; meixão, que são
as crias de enguia, que mais pareciam rebentos de soja, em azeite e alho
(eram tão pequeninas e transparentes que nem sei se estavam no seu
estado larvar ou se fizeram o parto prematuro às enguias para elaborar
aquela iguaria); lulas recheadas; salada mediterrânica; patés de
marisco, de peixe e de salmão.
Para acompanhar, o homem sugeriu-nos um verde tinto da casa,
Vinha Barreirinho, um verde intenso, não demasiado adstringente, e que haveria de mostrar o que vale mais tarde.
Como éramos totalmente virgens neste prato pedi ao homem que nos
tratasse bem e que não fosse muito bruto, para não ficarmos
traumatizados. Eu queria evitar ver a lampreia no seu aspecto natural,
enroladinha e pegajosa, a desafiar a nossa imaginação.
O homem convenceu o cozinheiro a separar o peixe em dois e trazê-la para
a mesa metade à bordalesa e metade em arroz típico de lampreia.
Vamos por metades. A primeira metade chega-nos oculta numa travessa, mas
que ao destapar-se, em vez da imagem ameaçadora, revela um cenário
enternecedor, capaz de derreter os corações mais insensíveis e de fazer
abrir a boca ao mais terrível terrorista detido em guantánamo.
Seis postinhas, ainda ténuemente ligadas entre si, com uma cor
castanho-escuro a revelar umas horas bem passadas em banhos de vinho
tinto. Quanto ao sabor, não há muitas palavras adequadas a esta
descrição, mas arranjam-se algumas interjeições: uhmmmm, uai, iiiaaa,
oba, salve, urra.
A segunda metade veio mergulhada no arrozal, com um aspecto que parecia
um plágio descarado do arroz pica no chão. Intensa e aromática,
transpirava vinho, vinagre, salsa e muito mais, que o homem não revelou.
Como detectar um principiante na lampreia? Inicia a refeição com aquele
semblante de quem já viu muita coisa nesta vida, até o derrube das
torres gémeas, e finalmente lá arranjou tempo para provar esse prato que
muitos consideram iguaria, mas que não deve ser mais do que um peixe
regado com vinho. Desconfia: o quê, o peixe salta para a boca, nem
precisamos de talheres, não? Mas ao trincar, a mudança de expressão, um
segundo, como um filme que passa inteirinho aos seus olhos: ah, meu
Deus, era isto.
Anos e anos a ver milhares de portugueses a rumarem em busca das
lampreias e eu com as minhas dúvidas e a desconfiar: o povo é ridículo e
parolo. Mas a minha história é mesmo esta: passei muitos anos a fugir
das tradições populares e outros tantos anos a tentar encontrá-las de
novo. A matança do porco, as vindimas, as romarias ou as tascas. Um dia
destes retomo as idas a Fátima, para o povo lá ir é porque há boa comida
por trás.
A partir de agora é assim: se o povo faz é porque é bom, nem quero discutir mais.
Não me venham com aquelas tretas, ai os cientistas descobriram isto
ou agora parece que aquilo faz bem. Eu só quero saber: o que é que o
povo diz disso?
Meus caros, a lampreia entrou directamente para a minha magnífica lista de pratos favoritos!
E eu que pensei que já não era assim tão novo para voltar a sentir
estes desvarios loucos da paixão gastronómica à primeira trinca.